• Viva Guarapuava

Uma cidade vive e vai visitar outras cidades

REGINA RIBEIRO*


Guarapuava,


Devo pesquisar sua história nos manuais? Os grandes feitos contados e repetidos a exaustão? Os atos fundadores como o do Padre Chagas que transferiu a freguesia para o local onde hoje se encontra a catedral? Ou falar de pessoas como a dona Laura que, segundo reza a lenda, foi atacada pelos índios e protegida por nossa senhora, erguendo uma igreja, a primeira, em agradecimento? Ou então de Dona Balbina que legou sua fazenda aos onze escravos, não sem antes destacar uma clausula de inalienabilidade que talvez, só talvez, os protegeria de futuras grilagens, mas que acabou numa disputa que duraria gerações? Não, ainda não acabou. Talvez deva falar dos degredados enviados para ocupar as terras portuguesas. Por que não sabemos seus nomes? Por que não reconhecemos seus filhos? Talvez dos povos indígenas que aqui viveram por séculos antes que viéssemos impor a nossa História Universal? Ou dos fugitivos de guerras além-mar que verteram seu suor em cooperativas? De seus antigos prefeitos? Generais? Pessoas que guardam no sobrenome algum grande ancestral a quem as terras foram legadas e que ainda hoje dão nomes a estas ruas? As ruas em que moramos, em que passeamos, estes nomes tão familiares e ao mesmo tempo tão estranhos?

Professora Leonidia. Pra mim, não uma pessoa que existiu em carne e osso e que fez o suficiente para ter seu nome imortalizado. Não, para mim, Professora Leonidia será sempre minha casa.

Não sei quem foi ela. Leonidia. Minha história não se liga à dela de maneira alguma, exceto por termos vivido na mesma cidade e sermos ambas professoras. Posso falar com bastante certeza que nossas vidas não se cruzam porque não tenho nenhum ancestral que enfrentou mares para chegar em Guarapuava. Nenhum antepassado que plantou nessa terra, que passou argamassa nessas construções, que teve mãos e pés calejados nos seus campos e nas suas fábricas, que versou sangue em suas guerras e revoluções, .

Ter nascido aqui foi acidente.

Meu pai conheceu um colega durante os anos de residência no Rio e por um acaso esse colega veio para cá. Foi ele quem falou pela primeira vez de Guarapuava. Guara Puava. Na época, traduziam como Lobo Bravo. Meu pai veio e se instalou.

Não tenho nenhum ancestral que enfrentou mares para chegar aqui, mas meus pais, vindos de Minas Gerais, enfrentaram alguns quilômetros. Agora, quarenta e sete anos depois, anunciam que a aventura guarapuavana chega ao fim.

Quando saírem, pouco de nós vai ter ficado. Nenhum dos meus irmãos teve filhos, não perpetuamos nosso sangue na cidade. Não escrevi meu nome nem deixei minhas pegadas em nenhum pavimento com cimento fresco. E, quando nossos amigos não estiverem mais aqui, não restará testemunhos de nossa passagem por ela.

Mas se eu não deixo rastro em Guarapuava, ela está em cada gesto meu. Guarapuava está no meu fundamento, na minha origem, no sotaque forte que não consigo perder. Está em mim na desconfiança com relação às pessoas, coisa que só fui perceber quando confrontada a paulistas, mineiros, parisienses, bascos.

Guarapuava está em mim.

Os olhos plenos de salto São Francisco.

A pele tocada pela grama do Jordão.

Os cabelos talvez ainda guardem algum resquício de fumaça emanada das churrasqueiras do Guaíra.

Fui feita de Guarapuava.

Feita dos livros que moravam lá em casa. Lispector, Fagundes Telles, Dostoiévski, Camus. Na Biblioteca pública, li o primeiro Sartre sem saber que um dia estudaria onde ele ensinou. Longe.

Guarapuava está em mim e eu me pergunto se não é assim que uma cidade vive, através de seus cidadãos. Uma cidade vive e vai visitar outras cidades, outros países, outros universos. A cidade ganha o mundo carregada por seus habitantes. Eu a levo para todo lugar. Outros conterrâneos a levam também, vejo-os nos Estados Unidos, na Alemanha, na França, no Canadá.

Talvez uma cidade seja isso mesmo, um amontoado de vidas particulares que ocorrem simultaneamente, que vão, que vem, que se cruzam. Anônimos, trabalhadores, passageiros, forasteiros, filhos, irmãos, estudantes, a cidade somos nós que a carregamos.

Guarapuava é feita daqueles que vivem seu dia a dia, acordam, tomam café, vão para o trabalho, conversam com os vizinhos em frente a casa enquanto compartilham um chimarrão. Ela é composta por essas vidas que acontecem, que trocam, compartilham, dialogam, fazem ela se mover, se desenvolver, prosperar.

Guarapuava é o Carol Sarraff que ousou sonhar quando ninguém mais fazia, é o querido dr. Murilo, que guardava a sua memória, são os professores da Unicentro, do Maneco, do Cristo Rei, a tia Même e os tiozinhos da Praça 9 de dezembro. É o Eliseu do Lagoa Lanches, o Brito, policial que fazia a vigia do antigo Fórum e para quem a cada ano novo levámos um prato de Bacalhau. Guarapuava são seus gatos, seus pequenos animais e se nada mais eu puder levar, pelo menos ela me deu Dualla, Tim, Boomer, Mimi e Laisa.

Guarapuava são seus degredados e, antes deles, os camés, os votorões, os cayeres e todos os povos violados. Guarapuava são seus filhos que a espalham pelo Brasil e fazem erguer os seus braços para o mundo. Nós somos ela, nós somos dela e ela é nossa.

Então eu me aproprio, é minha, posso escrever sobre, posso delimitá-la às palavras que eu escolho, às lembranças que semeio.

Posso sentar e descrever a paisagem que sempre me emociona ao subir a serra. Posso escrever sobre os vidros embaçados quando o ônibus vai chegando e eu penso « estou em casa ». Posso falar sobre os meus colegas e meus amigos de infância.

E um dia sei que vou sentar e lembrar das catequeses e festas juninas na casa paroquial, dos pedalinhos da Lagoa, das tardes no Lago, das cartas trocadas com amigos, dos cigarros mentolados atrás do Trianon, dos campeonatos de skate, dos eucaliptos da estradas nos quais pendurei todos os meus sonhos.

Um dia vou ter que lembrar, após tantas experiências extravagantes, que eu costumava me contentar com uma voltinha na XV, dentro do carro, o coração acelerado se perguntando se iria ver o menino que queria bem.

Vou descrever cada cor do pôr do sol e cada reflexo do Lago. Vou falar sobre as cerejeiras. Vou falar daquele dia em que da varanda da casa de uma amiga vi meu irmão encostar o carro no hospital São Vicente e entrar correndo. Depois veio até nós e anunciou que um amigo tinha morrido. Vou escrever sobre esse amigo.

Vou falar do Ana Vanda, o colégio que me permitiu ser em toda a liberdade. Vou falar daquela vez em que entramos no Pronto Socorro, a adrenalina reinando, enquanto investigávamos os corredores abandonados que nossos colegas diziam ser palco de crimes e refúgio para espíritos perdidos, ignorando completamente que a história da nossa própria família era tão ligada a do hospital. Vou escrever sobre as pessoas que nos acolheram quando precisamos. E sobre o dia em que minha turma da faculdade foi conhecer o assentamento da comunidade do Paiol de Telhas.

Vou escrever sobre tudo isso.



*Regina Ribeiro, jornalista formada pela Universidade Estadual do Centro-Oeste, mestre pela Sorbonne Université, em Paris, França, onde leciona filosofia para alunos do ensino médio ; escritora, autora do livro « Ignóbil » (Kotter Editorial)




Foto: Moises Gonzalez, Morro dos Freis, Guarapuava

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Ano de 1819 lembra o ato formal de fundação da Freguesia de Nossa Senhora de Belém 

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Documento original assinado em 1818 por Joaquim de Marçal nunca foi encontrado

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